O contraste é perturbador. Em Teixeira de Freitas, um prefeito médico decidiu terceirizar quase toda a saúde pública municipal por meio de um contrato que ultrapassa R$ 202 milhões. A decisão, longe de pacificar o sistema, abriu uma crise de credibilidade que hoje domina o debate político e social da cidade.
Marcelo Belitardo foi eleito com discurso técnico, humano e transformador. Prometeu fazer da saúde uma prioridade absoluta. A terceirização, no entanto, foi interpretada por muitos como um recuo estratégico — ou pior, como confissão de incapacidade de gerir diretamente aquilo que prometeu consertar.
O contrato com o Instituto Setes, responsável pela gestão dos principais hospitais do município, é o maior já firmado na área da saúde local. Especialistas questionam a proporcionalidade do valor e a ausência de dados públicos detalhados que expliquem, com clareza, como cada centavo será aplicado.
“Não se trata apenas de legalidade, mas de legitimidade e confiança pública”, afirma um professor de administração pública ouvido pela reportagem.
A população passou a questionar: onde estão os ganhos concretos? Houve redução de filas? Melhorou o atendimento? A resposta, nas unidades de saúde, parece negativa. Usuários relatam continuidade de problemas antigos e aumento da insegurança institucional.
Servidores também demonstram receio. Muitos falam, reservadamente, sobre clima de intimidação e medo de represálias, o que dificulta denúncias formais. A transparência, pilar de qualquer contrato dessa magnitude, segue sendo o ponto mais frágil do processo.
O ambiente político ficou ainda mais tenso após o assassinato de um diretor ligado à saúde. O crime, ainda não esclarecido, gerou comoção e ampliou o clima de suspeita. As autoridades não estabeleceram vínculo entre o homicídio e a terceirização, mas a coincidência temporal reforçou a pressão por investigações profundas.
Juristas alertam que, se forem comprovadas irregularidades, o caso pode envolver crimes administrativos graves. Por enquanto, tudo permanece no campo das apurações e das cobranças públicas — mas o silêncio do Executivo municipal não ajuda a dissipar dúvidas.
A pergunta que domina Teixeira de Freitas é direta e incômoda: por que um contrato tão alto, tão rápido e tão pouco explicado? Enquanto não houver respostas claras, a sensação é de que a saúde deixou de ser direito e passou a ser um negócio cercado de sombras.
O povo espera explicações. E a democracia exige luz onde hoje há silêncio.
Por Redação.